“PESSOAS DECENTES” - Padura em seu melhor momento
- zonanortejornalpoa
- 20 de fev.
- 2 min de leitura
Fiquei a me perguntar os porquês do título. Comecei lendo e lá no final uma personagem se refere a duas personagens como “pessoas decentes”. Na verdade, o autor cubano do memorável “O homem que amava os cachorros” de 2013 nos dá em 2023 este novo romance, com seu “detetive” Mário Conde, agora já envelhecido, com 62 anos, com muita gente indecente.
Coloco-o ao lado de outros dois romancistas latinos, Gabriel Garcia Marques e Mário Vargas Llosa. Para mim, um dos melhores da atualidade. Um escritor maduro, seguro com seus personagens burilados, a gente sente que são “reais”, com um enredo histórico e cultural de Cuba dos 1900 – a Nice das Américas – e a Cuba de 2016 – com a visita de Obama, Rolling Stones e o desfile da Chanel.
São tantos os temas, são tantos os meandros que não é possível tratar da sua maioria, pois daria um tratado. Aqui, vai fazer um “apelo” à leitura. Que muitos o leiam. Há “pessoas decentes” e contraditoriamente fazem atos indecentes também. Outras são indecentes sempre. Os indecentes frequentam a história que vai e vem.

“Pessoas decentes” é um livro com muitas pessoas e, repito, muito indecentes, com trambiqueiros, ladrões, burocratas do velho regime, dos estalinistas perseguidores em nome do “socialismo”, na Cuba pós 1960.
Padura trata de uma história que tem um desfecho em 1910, com a morte do jovem proxeneta Alberto Yarini, que num enfrentamento com outro proxeneta, é morto na rua aos 28 anos. Cuba para no seu enterro. O outro desenlace é recente, com o brutal assassinato de dois burocratas nada decentes.
A ligação do assassinato dos dois crápulas burocratas, ladrões de artistas, assassinos de reputações com o passado se dá porque o assassino JJ era descendente de alguém que vivera na época e teve acesso a dados que demonstravam que o velho detetive Arturo Saborit, do qual Mário Conde é uma cópia atual, deu na verdade o tiro de misericórdia no adversário de Yarini bem como matou sua amante também. Ninguém ficou sabendo do fato real, pois Yarini antes de morrer no hospital, deixou um testemunho de que fora o único a atirar. Mário Conde dá o “tiro” ao descobrir o assassino.
Este é o fulcro da história, e a ligação das épocas, dos tipos de então e de agora em Cuba.
Padura esmiúça a canalhice em todos os sentidos, mostrando o que era a Cuba sob domínio dos “americanos” como sob a tutela dos burocratas do novo regime. Como pessoas decentes se acabaram nas mãos de pessoas indecentes.
Padura não cai em qualquer tipo de romantismo ou denuncismo. Padura é um escritor de proa, seguro do enredo, dos personagens, como do substrato histórico e cultual.
Rápido, caro leitor, vá a uma livraria para comprar seu exemplar ou a uma boa biblioteca.

ADELI SELL é professor, escritor e bacharel em Direito
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